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De coadjuvante, Iemanjá virou a rainha do Rio Vermelho

Por Cleidiana Ramos

O dia 2 de fevereiro é o único no calendário brasileiro reservado a uma deusa do candomblé: Iemanjá, que tem o mar como endereço do seu reinado e proteção. A devoção mantida e atualizada pelos pescadores da Colônia de Pesca Z-1, localizada no Rio Vermelho, atrai milhares de pessoas que querem se unir às homenagens que eles prestam a sua padroeira. Mas o protagonismo de Iemanjá em uma localidade com forte tendência festiva começou a sedimentar-se há, aproximadamente, 80 anos. Uma linha do tempo sobre como a celebração para uma orixá sobressaiu-se ao culto a Sant’Anna católica pode ser acompanhada no conjunto de reportagens e fotografias do Centro de Documentação do Jornal A TARDE (Cedoc).

>>Confira imagens da festa de Iemanjá no site Espelho de Festa, derivado
da tese Festa de Verão em Salvador- um estudo antropológico a partir
do acervo documental do jornal A TARDE

A pesquisa nessa documentação durante o período de 104 anos – 1912, ano da fundação do jornal, até 2016 – foi realizada por mim para elaborar a tese intitulada Festa de Verão em Salvador- uma análise antropológica a partir do acervo do jornal A TARDE. Orientada pela professora titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Fátima Tavares, a pesquisa catalogou 2.690 fotografias e 6.992 reportagens relacionadas às comemorações de largo no verão baiano.

Para compreender as diversas perspectivas e nuances destas celebrações – conflitos, tensões, disputas por modelos e narrativas –, a coleção do mais antigo jornal em circulação na Bahia e que integra o seleto grupo de 19 centenários no Brasil revelou-se preciosa. Os jornais guardam em suas páginas e registros fotográficos os fragmentos do cotidiano que não são banais, pois os seus temas são sempre o que interessam a uma coletividade. A notícia, matéria-prima do jornal, é o que interessa ao maior número de pessoas de uma cidade ou país por informar sobre um serviço ou trazer o inusitado, que desafia a rotina.

Relevância antiga

A primeira referência encontrada na coleção de A TARDE sobre as festividades do Rio Vermelho é de 8 de fevereiro de 1915. Trata-se de um registro sobre as comemorações em torno da devoção à padroeira da localidade, Sant’Anna, com novenário, missa, mas também desfiles de ranchos e ternos e uma Segunda-Feira Gorda, como acontecia no Bonfim.

Segundo a tradição católica, Sant’Anna é a avó de Jesus, mãe de Maria. Ela é comemorada pela Igreja Católica em 26 de julho, ao lado do marido, São Joaquim. São considerados padroeiros dos avós, pois, de acordo com as narrativas da tradição católica, eram já de idade avançada quando Ana conseguiu engravidar.

Sant’Anna tornou-se a padroeira do bairro em um episódio ligado à Guerra da Independência, segundo a narrativa da professora da Ufba, Edilece Couto, em seu livro Tempo de Festas: homenagens a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Anna em Salvador (1860-1940). Em uma aparição, a santa teria alertado os moradores da localidade sobre um ataque iminente dos portugueses.

A festa ocorria em fevereiro e não em julho, porque era no verão que o Rio Vermelho contava com a sua população flutuante de veranistas. Este segmento envolvia-se alegremente nos eventos que tinha até lavagem da Igreja, mesmo com a proibição de lavar o interior de templos católicos expedida em 1889 pelo arcebispo dom Luís Antônio dos Santos, como mostra a edição de A TARDE de 2 de fevereiro de 1926.

A lavagem da igreja, segundo o texto, era realizada pelas “moças do Rio Vermelho” e não “o povo”, como no Bonfim: “Continuando uma das tantas tradições que constituem a vida festiva da Bahia, as moças do Rio Vermelho foram hoje, num mixto de fé e alegria lavar a Igreja de Sant’Anna, o que constitue um dos mais pitorescos aspectos desta festa popular”, diz um trecho da reportagem intitulada “As festas no Rio Vermelho”, da edição de A TARDE em 2 de fevereiro de 1926, página 2.

A flexibilidade de conseguir lavar a igreja, mesmo com uma proibição vigente neste sentido, não chega a surpreender, pois era a elite a então protagonista das festividades no Rio Vermelho, com os banhos de mar à fantasia e os desfiles do Bando Anunciador que entrou no calendário da cidade como o “grito do Carnaval”. O desfile incluía carros alegóricos luxuosos e temáticos. Em 1944, a vitória dos aliados contra o nazi-fascismo foi o tema central do desfile:

“À tarde saiu o bando, composto de três carros alegóricos e dois caminhões, sendo um de “bahianas” e outro de “moleques”. […]. O carro principal representava a vitória das nações unidas, ostentando um grande V artisticamente ornamentado. Em frente ao V, via-se uma senhorinha trajando as cores da Bandeira Nacional e, nos quatro pontos do carro, elegantes moças trajadas com as cores dos pavilhões das nações unidas”. (A TARDE, 7/2/1944, p.2).

As notícias sobre o presente dos pescadores aos poucos foi ganhando notoriedade. De relatos jocosos, como uma narrativa na capa de 1930, a devoção à Iemanjá alcançou o protagonismo até que em 1950 já era anunciada em A TARDE com ênfase: “A Festa de Yemanjá – Os pescadores levaram seus presentes à Rainha do mar”.

Artista Manoel Bonfim, de chapéu, segue no barco que leva imagem antiga | Fotos Cedoc A TARDE | Ag. A TARDE

Presente vira o centro da festa

Embora os desfiles tivessem protagonismo, na década de 1940 o presente dos pescadores, iniciado segundo as versões mais aceitas em 1924, começou a ganhar destaque: “Brancos e pretos, ricos e pobres, reuniram-se todos na praia de Sant’Anna, para a oferta dos presentes”, narra o texto de A TARDE em 2 de fevereiro de 1944, página 2.

A narrativa é bem diferente da primeira referência feita pelo jornal ao presente em 1930, na capa. No texto intitulado “Dona Janaína, Princeza do Mar…” o destaque é para uma confusão já anunciada no subtítulo: “E houve pancadaria grossa, intervindo a polícia”.

O texto chama a prática, em outro trecho, de algo “genuinamente selvagem”. A TARDE não foi exceção na transmissão desse tipo de pensamento pejorativo. Era algo que se debatia nos círculos da elite intelectual baiana que defendiam uma cidade livre dos “africanismos”. Mas, outra vertente avaliava as manifestações culturais afro-brasileiras como um trunfo para a Bahia, que amargava a trajetória de perda de prestígio político e econômico com as derrocadas seguidas na economia agrícola.

E nesse contexto brilha a literatura de Jorge Amado. Em 1944, Dorival Caymmi entrou na trilha sonora deThe Three Cabaleros, o filme dos estúdios Disney. Na produção, Pato Donald, ao lado de Zé Carioca, saracoteia ao som da canção Você já foi à Bahia? antes de desembarcar em Salvador. E tinha ainda a produção de intelectuais como Edison Carneiro, Pierre Verger, Roger Bastide, dentre outros, alçando o candomblé a um importante elemento da cultura baiana.

Saída

Na década de 1970, o monsenhor Antônio da Rocha Vieira resolveu levar a festa de Sant’Anna para o dia 26 de julho, data oficial da sua comemoração na Igreja Católica. Em 1977, uma nova tentativa de lembrar os velhos tempos com a realização de uma lavagem da igreja, esbarrou na proibição do padre Raimundo Rocha Filho: “Não haverá lavagem da Igreja de Santana, na festa de Iemanjá no Rio Vermelho. O templo vai permanecer fechado porque o vigário Raimundo Rocha Filho não concorda com a mistura da festa profana com atos religiosos. A igreja fecha amanhã às 20 horas depois da missa e só reabrirá no dia 7, após o encerramento da festa”, conta a edição de A TARDE em 29 de janeiro de 1977.

Sem ligação com a festa de Sant’Anna, Iemanjá passou a ser a razão do festivo Rio Vermelho. No entorno da devoção particular de uma corporação, os pescadores, a festa tem exercido sua dinâmica tornando-se mais plural.
Atualmente a celebração envolve vários eventos. A partir do rito na Casa do Peso conectam-se outras festas atraindo o público mais jovem dentre as que formam o conjunto que analisei. E A TARDE foi acompanhando e registrando estas transformações com especiais como O Mar de Iemanjá, uma série publicada em 2007, especiais em outros suplementos – A Tardinha, Caderno 2+ e a revista Muito –, enriquecendo a interessante face-memória do jornalismo.

Coleção fotográfica possui raridades

A Festa de Iemanjá é a segunda com o maior número de imagens na coleção do Cedoc A TARDE. O evento vem em seguida ao Bonfim com 346 registros, o equivalente a 12,9% no total de 2.670 sobre as festas de verão. São fotografias que mostram especialmente a aglomeração de devotos no entorno da Casa do Peso e foco no barco que leva o presente principal.

Na coleção, duas imagens destacam-se. A primeira é de 6 de fevereiro de 1961 e mostra um registro raro. A procissão de Nossa Senhora Sant’Anna quando a comemoração em homenagem a ela já havia perdido o protagonismo para Iemanjá.

Outra imagem é o registro de um acontecimento histórico: a substituição da imagem que fica na parte externa da Casa do Peso. A foto é de 3 de fevereiro de 1971. Nela, aparece em meio às flores parte do rosto de uma imagem de Iemanjá. O barco tem, entre os seus ocupantes, o artista Manoel Bonfim, autor da imagem antiga e da que vai substituí-la. O objetivo deste cortejo é depositar a antiga imagem no fundo do mar ao lado do presente dos pescadores.

“Junto com o principal presente foi levada nos braços dos pescadores uma escultura de Iemanjá – aquela que permaneceu por muito tempo exposta em frente à praia, Os pescadores disseram que receberam muitas propostas para que a imagem fosse vendida, mas eles recusaram. A escultura foi colocada num barco e depositada em alto-mar. Em seu lugar foi colocada outra imagem, um pouco maior, completamente nova. As duas esculturas são do artista Manuel Bonfim”, diz o texto intitulado “Mercado reabre com acidentes, mas Iemanjá foi festa de paz”, página 3.

Em 1999, mais uma vez, Manoel Bonfim foi convocado para trabalhar em uma nova estátua para Iemanjá. Dessa vez, em texto assinado pelo jornalista Claudio Bandeira, publicado em 1º de fevereiro de 1999, na página 3, a explicação para a substituição é que a antiga estava deteriorada. A nova versão foi confeccionada em fibra de vidro com os retoques finais dados pelo artista plástico, autor, portanto, das três versões da iconografia de devoção dos pescadores.

Redação
O A Tarde é um jornal diário brasileiro que circula no estado da Bahia. Fundado por Ernesto Simões Filho,[3][4] é o mais antigo jornal impresso baiano em circulação[5] e um dos mais antigos do Brasil,[4] a qual iniciou-se em 15 de outubro de 1912

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