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sábado, agosto 15, 2020
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Blocos buscam manter viva a tradição do samba no Carnaval de Salvador

Se engana quem pensa que o Carnaval de Salvador tem sua origem voltada para a Axé Music. Apesar da atribuição recorrente e quase intuitiva por parte dos foliões, o próprio gênero baiano se deu através de uma derivação de outro ritmo, ainda mais tradicional nas terras brasileiras: o Samba.

Considerada uma das maiores manifestações culturais populares do Brasil, o samba tem buscado sua perpetuação e reinvenção ao longo dos anos. Durante o período de Carnaval, essa identidade tem sido marca registrada da folia de muitos locais, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, estes podem ser considerados vertentes do samba tradicional.

Isso porque, o ritmo tem origem justamente em solo baiano, há muito tempo atrás, mais precisamente durante o período escravocrata, no século 17. O samba possui em sua essência a remontagem de batuques dos escravos africanos, com influências indígenas e portuguesas, incluindo a poesia e alguns instrumentos musicais de corda e percussão.

As rodas de samba são elementos culturais do ritmo baiano | Foto: Beatriz Braga | Vai Kém Ké

Por necessidade de distinção ao movimento musical carnavalesco adotado no Rio de Janeiro, o termo “Samba de Roda” começou a ser atribuído na Bahia durante o século 20.

Blocos Carnavalescos

Criado em 1975, por jovens estudantes do Colégio Severino Vieira, o Alvorada é um dos patrimônios culturais da Bahia e o mais antigo bloco de samba a desfilar no carnaval da cidade, com 45 anos. Com um legado familiar, o bloco dá continuidade ao trabalho de Valdomiro França, líder do Vai Levando – bloco que, nas décadas de 1950 e 1960, reunia cerca de 5 mil homens no centro da cidade.

“Meu pai, Valdomiro França, serviu de exemplo para todos nós. Era um carnavalesco autêntico e fez o “Vai Levando” com outras pessoas muito importantes no cenário do Samba. Então, em muitos momentos serviu como grande inspiração. O samba em si, existe uma dificuldade muito grande… Mas conseguimos (com o Alvorada) conquistar, de maneira muito espontânea, a quinta, sexta e o sábado para fazermos samba no circuito Osmar. Quem legitimou isso foi o povo”, lembrou Vadinho, presidente do bloco.

Depois do Alvorada, muitos outros grupos começaram a surgir de maneira subsequente. Cinco anos mais novo, o Bloco do Cajá comemora neste ano seus 40 anos de história. Curiosamente, o movimento também teve origem familiar. Seu idealizador e criador, Lourival Cajá, começou a puxar cerca de 50 foliões numa charanga de sopro e percussão. Hoje, o bloco comandado Oswaldo Cajá, filho e herdeiro da folia.

“Meu pai era hippie, junto com alguns amigos. Eles desfilavam pelas festas populares com o sambão, e isso foi evoluindo dentro de Salvador. No primeiro ano de carnaval, fizeram seu primeiro desfile formal […] Em 1990, tivemos nosso primeiro trio elétrico e viemos chegando ao atual patamar. Meu pai não está mais conosco, mas eu dou continuidade ao legado como uma forma de herança cultural”, contou Oswaldo.

Apesar da essência, o samba acabou perdendo um pouco da hegemonia no mercado musical baiano para o Axé. Entretanto, a justificativa para esse mudança na preferência dos foliões é um pouco mais profunda do que parece.

“O Axé é um rótulo dado a um produto inserido de maneira forte no mercado. Na década de 80 e 90, a Bahia não competiria comercialmente com Rio de Janeiro através do samba. O frevo era algo muito forte de Olinda, em Pernambuco. Então a Bahia precisava de um rótulo. As batidas do terreiro, das músicas de rua, foi envelopado para se criar um produto único chamado Axé. Esse ritmo tem muitas vertentes e dentro desse entretenimento está o samba”, explicou Lomanto Oliveira, fundador do Samba do Vai Kem Ké.

Infelizmente, essa mudança não gerou apenas consequências mercadológicas. Ao longo dos anos, blocos tradicionais foram perdendo espaço na folia, até chegarem ao ponto de encerrarem suas atividades. Apesar disso, grupos antigos como o Alvorada e Bloco do Cajá tem entrado com papel fundamental na perpetuação de reinvenção dessa essência tão tradicional do Carnaval baiano.

“Por muito tempo, muitos blocos de samba não conseguiram resistir a pluralidade de ritmos e acabaram sendo ofuscados. Mas nós guardamos o lugar do samba e, atualmente, temos mais de 40 cidades de samba. O Alvorada, além desses 45 anos, foi o incentivador de novas agremiações que fazem samba na avenida”, detalhou Vadinho.

Precursores e remanescentes do samba carnavalesco, Alvorada completa seus 45 anos em 2020 | Foto: Divulgação | Bloco Alvorada

Nesse conceito de novas agremiações que tem surgido, por exemplo, o Vai Kem Ké. O grupo, Idealizado pelo compositor, maestro e multi-instrumentista, Augusto Conceição (ex-Timbalada), propõe a preservação e renovação do legítimo samba da Bahia, valorizando a tradição do samba duro e samba de roda, sempre trazendo para o segmento mais jovem, com contextos mais atuais da nossa sociedade.

“Tudo nessa vida é cíclico e se reinventa, dependendo da maneira que você se comunica. Nós pegamos o samba de roda e comunicamos isso para um público que está curioso em conhecer a história da Bahia, uma história que por muito tempo esteve oculta. A gente procura trazer isso de uma forma bem moderna, uma linguagem de liberdade na forma de se dançar e de liberdade com seu corpo, trazendo temas bastante atuais”, finalizou Lomanto.

Nessa ‘brincadeira’, o ritmo segue se estendendo e, consequentemente, se reinventando ao longo de todos esses anos. Se depender de toda essa turma, o intuito é de que a fala da também sambista, Alcione, parafraseie a história da folia carnavalesca baiana e “Não deixe o samba morrer”.

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